Meus dados pessoais foram usados sem minha autorização. E agora?
Um guia prático de 5 passos.
Você Acabou de Descobrir a Violação
Você acabou de descobrir que uma empresa usou seus dados sem autorização. Seu CPF, telefone, e-mail, histórico de compras — tudo sendo usado para fins que você nunca permitiu. Talvez você tenha recebido ligações estranhas, visto anúncios com suas informações pessoais, ou descoberto cadastros que não fez.
A sensação é de impotência: “E agora? O que posso fazer? Vou sofrer prejuízos?”
A resposta é: muito mais do que você imagina.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) existe exatamente para isso — e neste guia, vou mostrar os 5 passos práticos para reagir, proteger-se e, se necessário, ser indenizado.
Como advogado especialista em proteção de dados e responsabilidade civil, preparei este roteiro para quem teve seus dados pessoais violados — seja por uso indevido, compartilhamento não autorizado ou finalidade diversa da consentida.
🛡️ Passo 1: Controle de Danos Imediato (Aja Agora)
Aja rápido. A cada minuto, seus dados podem estar sendo usados para abrir contas, solicitar crédito ou até cometer fraudes em seu nome. Mesmo quando a violação parece pontual, é essencial adotar medidas de segurança digital imediatas.
1. Troque suas senhas Modifique agora as senhas dos serviços que possam ter sido comprometidos — especialmente do seu e-mail principal e de contas bancárias. Use senhas únicas e complexas, e nunca repita a mesma senha em diferentes plataformas.
2. Ative a autenticação em duas etapas (2FA) Em e-mails, redes sociais, aplicativos financeiros e serviços em nuvem, ative o segundo fator de autenticação. Isso impede que terceiros acessem suas contas mesmo que tenham obtido sua senha.
3. Monitore movimentações suspeitas Acompanhe diariamente extratos bancários, cartões e o Registrato (plataforma do Banco Central que mostra contas e empréstimos em seu nome). Qualquer irregularidade deve ser comunicada imediatamente à instituição e às autoridades competentes.
Esta não é paranoia — é proteção estratégica.
📋 Passo 2: Preserve as Provas (Monte Seu Dossiê)
Independentemente de o dano parecer pequeno ou grande, registre tudo. A documentação é a base para qualquer ação futura — e pode ser decisiva para sua indenização.
1. Guarde comunicações e registros Mantenha e-mails, mensagens, contratos, formulários ou prints que comprovem a coleta, o uso ou o compartilhamento indevido dos seus dados. Organize tudo em uma pasta digital com datas.
2. Capture telas (prints) com timestamp Se você identificar o uso indevido dos seus dados — por exemplo:
Um anúncio direcionado com suas informações privadas;
Uma oferta personalizada que revela dados que você não forneceu;
A exposição do seu CPF em documento público ou site. Registre a tela e salve com data, hora e URL.
3. Faça um Boletim de Ocorrência (B.O.) Mesmo que o caso pareça “apenas civil”, um B.O. eletrônico é fundamental: ele formaliza que você teve ciência da violação e buscou agir, servindo de prova documental para futuras etapas — inclusive judiciais.
⚠️ Quando a Violação Vira Pesadelo: Um Caso Real
Maria, 34 anos, descobriu que sua foto e CPF estavam sendo usados em anúncios de empréstimo consignado que ela jamais autorizou. Além do constrangimento de amigos perguntarem “por que você está vendendo empréstimos?”, começou a receber ligações de cobrança de dívidas que não contraiu.
Após notificação extrajudicial ignorada pela empresa e ação judicial com provas robustas, Maria foi indenizada em R$ 15 mil por danos morais, além da exclusão definitiva de seus dados das bases da empresa.
A lição? Violação de dados não é “detalhe técnico” — é ataque à sua dignidade e reputação. E a lei reconhece isso.
⚖️ Passo 3: Conheça Seus Direitos (A Lei Está do Seu Lado)
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) existe para proteger sua privacidade e dignidade no mundo digital. Ela estabelece limites claros sobre como empresas e terceiros podem tratar suas informações pessoais.
1. O uso indevido é ilegal — ponto. Mesmo que você tenha fornecido seus dados, a empresa só pode utilizá-los para a finalidade específica que foi informada e aceita por você. Qualquer uso fora desse propósito é tratamento irregular e violação da lei. Exemplos de uso indevido:
Usar dados de cadastro de currículo para enviar spam publicitário.
Compartilhar sua lista de compras com parceiros sem seu consentimento.
Manter seus dados após você solicitar a exclusão.
2. A empresa tem responsabilidade objetiva A empresa ou pessoa que tratou seus dados é o chamado agente de tratamento. Ela tem o dever de adotar medidas de segurança e responde civilmente por danos causados — mesmo que não tenha agido com dolo. Traduzindo: não importa se foi “erro do sistema”. Se houve dano, há responsabilidade.
3. A ANPD fiscaliza e pune A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) é responsável por fiscalizar e aplicar sanções. Você pode registrar uma denúncia diretamente no site da ANPD (www.gov.br/anpd), relatando a violação. As multas podem chegar a R$ 50 milhões.
📧 Passo 4: Notifique a Empresa (O Ultimato Formal)
Antes de recorrer ao Judiciário, é fundamental exigir esclarecimentos e medidas corretivas da empresa envolvida.
1. Exija explicações formais por escrito. Envie uma notificação extrajudicial ao Encarregado de Dados (DPO) da empresa, pedindo:
Quais dados seus foram utilizados;
Com qual finalidade;
Se houve compartilhamento com terceiros;
Cópia de todos os dados que possuem sobre você.
2. Peça a exclusão, correção ou bloqueio imediato Nos termos da LGPD, você tem direito líquido e certo a requerer a exclusão, correção ou anonimização dos dados tratados de forma irregular.
3. A empresa tem 15 dias para responder A LGPD determina um prazo razoável (a jurisprudência tem fixado em até 15 dias). Se a empresa ignorar ou se recusar a corrigir, você terá uma prova adicional de má-fé — o que fortalece imensamente uma futura ação judicial.
4. Conte com auxílio técnico-jurídico Um advogado especializado em LGPD pode redigir uma notificação robusta, usando os termos técnicos corretos e preservando todos os seus direitos à reparação futura.
💰 Passo 5: Busque a Reparação (Seu Direito à Justiça)
Se a empresa se omitir ou se você já tiver sofrido consequências concretas, a via judicial é o caminho legítimo para responsabilizar e obter indenização.
1. Dano moral — você não precisa provar prejuízo financeiro A utilização indevida de dados pessoais viola sua intimidade e autodeterminação informativa. Assim, não é preciso que o dano seja financeiro: o simples uso indevido de dados já pode ensejar indenização por dano moral. O que os tribunais têm reconhecido:
Exposição indevida de dados gera constrangimento e violação da privacidade.
Indenizações variam de R$ 5 mil a R$ 50 mil (ou mais, conforme a gravidade).
2. Dano material — prejuízo concreto é reparado integralmente Se você sofreu prejuízo financeiro decorrente do uso indevido — como golpes, cadastros falsos, cobranças indevidas ou negativações injustas — o dano é material e deve ser integralmente reparado.
3. O papel da ação judicial: punir e prevenir A ação judicial tem dupla função: reparar o dano sofrido (indenização para você) e coibir práticas abusivas (punição para a empresa). O Judiciário tem reconhecido que o tratamento indevido de dados não é mero “incidente”, mas uma violação de direitos fundamentais.
✅ Checklist: O Que Fazer Agora
Use este roteiro como guia de ação imediata:
[ ] Troquei todas as senhas relevantes.
[ ] Ativei autenticação em duas etapas (2FA).
[ ] Consultei o Registrato e extratos bancários.
[ ] Salvei prints, e-mails e documentos que comprovam a violação.
[ ] Fiz Boletim de Ocorrência (B.O.).
[ ] Enviei notificação extrajudicial à empresa.
[ ] Registrei denúncia na ANPD (se aplicável).
[ ] Consultei advogado especializado em LGPD.
❓ Perguntas Frequentes
1. Preciso provar que tive prejuízo financeiro para processar? Não. O uso indevido de dados já configura dano moral, mesmo sem prejuízo financeiro comprovado.
2. Quanto tempo tenho para processar a empresa? O prazo prescricional para reparação de danos (morais e materiais) é de 3 anos a partir da ciência da violação.
3. A empresa pode alegar que eu “aceitei os termos de uso”? Não, se o uso foi para finalidade diversa da informada. Termos de uso abusivos ou genéricos demais não têm validade.
4. Posso processar se eu mesmo forneci os dados? Sim. Fornecer dados não significa autorizar qualquer uso. A empresa deve respeitar a finalidade informada.
5. Vale a pena fazer B.O. se não houve crime? Sim. O B.O. é prova documental de que você tomou providências e pode ser usado em ação civil.
Conclusão: Você Não Está Desamparado
Ter seus dados violados é uma das experiências mais invasivas do mundo digital — você sente que perdeu o controle sobre parte de si mesmo. Mas, como vimos, há instrumentos eficazes para reagir. Você não está desamparado. A lei está do seu lado.
⏰Importante: Não Deixe Para Depois Violações de dados têm prazo prescricional (geralmente 3 anos). Quanto mais tempo você espera, mais difícil fica provar o dano. Se você teve seus dados utilizados de forma indevida, não ignore a violação.
👉Agende uma análise do seu caso e vamos juntos buscar a reparação que você merece.
💡Dica de Mentor: A sua privacidade é um direito fundamental. Empresas que não a tratam com seriedade cometem a maior falha estratégica do mundo digital de hoje — e pagam caro por isso. Não seja conivente com a sua própria violação.
